Mais um super debate realizado no dia 19/01/2011, durante a quarta edição da Campus Party no Brasil. Confira o que compartilharam os convidados Pedro Doria, editor-chefe de conteúdos digitais do jornal O Estado de São Paulo; Rafael Sbarai, editor do site da revista Veja e responsável pelas mídias sociais da marca; Rafael Losso, coordenador de conteúdo do Portal MTV; Daniela Pereira, gerente de conteúdo transmídia da Rede Globo; e Eduardo Arcos, fundador da empresa Hipertextual, que mantém 16 blogs super relevantes em espanhol.

Pedro Doria
Conta que, por causa da tradição e reputação da marca do Estadão, eles não puderam optar pelo caminho mais fácil para conseguir visitantes, que seria apelar para tópicos popularescos como mulheres, humor, etc. Por isso, investiram em muitos blogs de qualidade para atrair tráfego e crescer. No canal Radar Econômico o Estadão desmistificou o tabu de não linkar para fora do site. Eles até dão retweet na Folha! Hoje, os blogs têm mais tráfego do que a área comum de notícias. Pedro explica que o segundo investimento em mídias sociais foi no Twitter, porque geralmente quem gosta de notícia, também gosta de acompanhá-las no microblog. Entretanto, eles não automatizaram as contas: cada editor é responsável pelos tweets e o perfil institucional tem um profissional dedicado que busca material interessante no site e também posta os furos dos concorrentes (Terra, G1, Folha, etc.). Doria afirma que eles não medem o desempenho por followers, pela audiência, mas pelo engajamento (taxa de RTs por follower) – que, segundo ele, é o mais alto dos portais de notícia no Brasil, com direito a resposta para a maior parte das interações dos usuários. O terceiro investimento foi no Facebook, que ainda está sendo explorado, mas já gera conversações e engajamento. Já o Orkut, apesar de ser a mais populosa mídia social no Brasil, não traz resultados para o Estadão e seus usuários não se interessam muito pelo que o jornal pode oferecer lá.
Pedro Doria afirma que a integração é necessária. No começo, as mídias tinham uma equipe para pegar o trabalho da redação e adaptar à internet. Agora, o processo de integração é fazer com que os jornalistas produzam direto pra internet: não basta mais sair com bloquinho pra rua, porque ele precisará trazer conteúdo multimídia também. Na teoria parece fácil, mas “na prática é um inferno”, diz Doria. Entrevista coletiva é bacana, com cobertura em tempo real e tudo mais. Mas isso, todo mundo tem: o jornalista bom e atualizado tem que esperar acabar a entrevista e ir lá atrás de mais informações que os outros não têm! Ele não pode ficar redigindo em seu notebook ou passando por telefone para a redação o conteúdo que a agência de notícias vai publicar de qualquer maneira. Essa integração acontece de editoria em editoria, porque cada uma tem um ritmo. Para convencer os jornalistas de que internet vale a pena, foi preciso mostrar que as notícias no site repercutiam. Então apostaram em dar ênfase aos autores, colocando seus nomes na home page, junto aos títulos das notícias. Doria revela que, para aumentar ainda mais o tráfego e interesse dos leitores, passaram a não segurar mais os furos para o jornal impresso: agora é publicado no site assim que possível.
Rafael Sbarai
Com apenas 24 anos de idade, trabalha na versão digital da revista Veja desde 2008. Rafael destacou-se com sua tese de mestrado que buscava entender o comportamento e assimilação de informação dos usuários em rede. Rafael informou que a Veja tem atualmente diversas editorias digitais e a mesma quantidade de jornalistas para a revista impressa e online, que estão sempre buscando a convergência entre conteúdo e o ambiente digital.
Sbarai acredita que as mídias sociais permitem às pessoas pertencer aos grupos das marcas que admiram. E pertencer a grupos, fazer parte, integrar-se, é um desejo que os humanos sempre tiveram. Para ele, ao trabalhar com o meio digital é preciso pensar menos de forma menos centralizada e mais distribuída. Rafael conta que o perfil da revista no Twitter já possui mais de 600 mil seguidores e o microblog é a terceira maior fonte de tráfego do site (apenas atrás de visitas diretas e oriundas do Google), com o Facebook em quinto lugar.
Rafael Losso
O ex-VJ, com seu jeito meio enrolado de eterno adolescente, conta que a MTV tem um histórico de linguagem moderna e inovação tecnológica. Até os anos 90, o site da emissora era visto apenas como apoio à marca, com informações sobre a emissora, seus programas e profissionais. Mas quando o vídeo chegou com força à internet, foi uma mudança de paradigma e eles precisaram se reinventar. Não queriam entrar na internet, queriam “fazer a internet” e o caminho foi prestar atenção às redes sociais e produzir conteúdo.
Rafael explica que no começo dos anos 90 a MTV buscava e revelava bandas. Hoje, a MTV digital faz isso com os blogueiros, com esse novo tipo de talento. Praticamente 50% dos VJs atuais da MTV são pessoas que vieram da internet. Por causa desse trabalho em redes sociais, apadrinhando blogueiros, Losso revela que o tráfego no portal da MTV aumentou 400% em apenas um ano. Assim eles também buscam levar o conteúdo desse pessoal da internet para o público mais fiel à televisão.
Daniela Pereira
Há 2 anos começou seu trabalho na emissora, com muita pesquisa. A primeira ação bem sucedida foi “Mil Casmurros” (premiada em Cannes). Mas, conta Daniela, depois disso eles não sabiam o que fazer. Tentaram se aproximar dos blogueiros, aproveitando a temática da novela Caminho das Índias, promovendo inclusive um encontro entre Gloria Perez e um grupo de blogueiros para entender melhor a realidade dessas pessoas. Na festa de lançamento da novela, a equipe de Daniela esperava que os blogueiros cobrissem a festa como geralmente faz a imprensa. Foi aí que eles perceberam que blogueiros não são como a imprensa tradicional. Após muitos erros e declararem-se analfabetos no assunto, Daniela explica que tiveram ajuda de três consultores para conseguir montar, em abril de 2009, a área de mídias sociais da emissora que finalmente acertou seu rumo.
Segundo Daniela, o trabalho da Rede Globo nas mídias sociais tem foco em reforçar a marca, trabalhar o relacionamento e aproximar o público que está na internet da mídia televisiva. O departamento de transmídia atua em ações de relacionamento para estender a experiência de entretenimento da televisão com conteúdo específico para o meio digital. Para cada novela há vários conteúdos diferentes, para diversas mídias sociais e no próprio site da emissora. Daniela diz que, por meio de software específico, eles monitoram 40 palavras-chave da grade de programação no Twitter, com direito a análise de sentimento e relatórios diários. A interação ainda é menor do que o desejado, sendo uma meta para 2011 aumentar esse número – porque, devido ao massivo volume de menções (são mais de 700 mil seguidores), responder e interagir pode ser algo bastante difícil de se fazer.
Eduardo Arcos
Começou em 2005 com a Hipertextual, em sua casa no México, tendo em vista o potencial dos blogs de nicho. Aos poucos foram desenvolvendo outros 15 blogs que abordam diversos assuntos como gadgets, música, carros, etc. Hoje a empresa tem uma equipe com mais de 100 blogueiros e a principal fonte de monetização é a publicidade.
Eduardo conta que inicialmente os blogueiros recebiam uma porcentagem do lucro publicitário, mas esse modelo não funcionava bem porque o valor obtido, o tempo investido e as datas de pagamentos variavam muito e não estavam em harmonia. Então passaram a pagar salários, com recompensas pelos conteúdos que geram mais buzz e retorno de mídia.
O fenômeno de blogs é mundial, mas a maior parte não consegue sobreviver com publicidade. Arcos explica que o Google Adsense funcionou por um tempo, mas depois foram montadas equipes comerciais para vender o espaço publicitário dos blogs. Outro fator positivo é que por meio de seus blogs, os anunciantes atingem todos os países que falam espanhol na América Latina, poupando tempo de selecionar blogs país por país para realizarem suas campanhas.